segunda-feira, fevereiro 1

Poesia |Felipa

























[O som da chuva torrencial camuflava seu choro miúdo,debruçada  a janela  invocou  por ele inúmeras vezes,O vento sopraria e ela voltaria a morrer, por todas as  vezes que ele a abraçou com ternura,fazendo a abandonar este mundo amargo ,qual tanto resistiu lágrimas,quando o ódio a cegou,José a  fazia ver,ela perpetuaria naqueles olhos...]

 Felipa nada tinha, o que tinha,tinha medo, tinha umas marcas no rosto , 

uns cortes nos dedos, o pó, a dose. Um gole a seco. Tinha a varanda vaga de José, tinha Zé em mente mas o tinha. Debruçada ao violão numa canção inexistente,frustrada , demasiados tragos e acordes mudos.
 Seus grandes olhos castanhos penetravam canto a canto da janela, o lixo do concreto reto,ruas e infelizes esquinas, as metrópoles e seus pequenos infernos; agonizava por entre as mentiras que a vendiam.
 Nunca mais shows ao luar ,cinema ou mesa de bar, sem respingos de tinta no chão,na face nas mãos,somente os olhos borrados juntando sal.
 Em meio a segredos sanados com o tempo, fumava sua saúde pra sobreviver,e como uma estrela de filme triste,ficava até bela ao sofrer, então ,que na obscuridade da cena ,em seus vinte e cinco anos,pensou em até fazer planos e cantar algo outra vez, quando num flash, o seu passado refez,dentro da caixa lascada de madeira, ela ouviu a risada cada brincadeira, besteiras...Seu corpo todo se enrijeceu. 
Felipa despertou num sopro de vida de uma feliz fotografia ,e de close em close  foi perdendo a pose de musica sem poesia.
Uma lágrima miúda assaltou, seguida de um risinho besta nos cantos dos lábios. Ela levantou se,cantarolou algo baixinho, correu de meias pela casa lunática, dançou entre os coloridos véus de sua criação rodopiando ,iluminada, leve e magra. Lançou se num mar,refugiou se em palavras.
Pensou em Zé. Calou .
Calou  como se fosse morrer. 
trêmula, 
insolúvel,sem cor,dissolveu se até o ralo. Mas vingou. Sentiu o beijo do altar;Felipa uniu tudo o que tinha e o que não tinha, carregou pesado sobre os ombros, os concentrou numa folha de papel e finalmente num grito estridente, disparou o gatilho da caneta e libertou-se aqui .



{Becky Morac}


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